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O que é Asma?
É uma doença crônica das vias respiratórias secundária à inflamação e estreitamento das vias aéreas, pode acometer até 29% da população em diferentes países, resultando em sintomas que variam em intensidade e frequência de pessoa para pessoa.
Apesar de forte associação da asma com exposição a irritantes inalados, é importante ressaltar que os asmáticos são pessoas geneticamente mais propensas a apresentar broncorreatividade (broncoespasmo) frente à exposição a alérgenos, poluentes do ar, exercício físico, mudanças climáticas e infecções respiratórias.
Quem trata Asma?
O pneumologista é o médico especializado em saúde respiratória. Dentre suas atribuições, cabe ao especialista evitar doenças pulmonares, investigar, diagnosticar e tratar doenças dos pulmões e do trato respiratório.
Quais são os sintomas da Asma?
Cansaço (falta de ar)
Chiado no peito (sibilância)
Sensação de aperto no peito
Tosse
Limitação à atividade física, principalmente exercícios aeróbicos
Quais os 6 tipos (fenótipos) mais comuns da Asma?
Há vários fenótipos de asma, o que demonstra o caráter heterogêneo da doença. A depender das características demográficas, clínicas e patofisiológicas, os pacientes foram divididos em grupos com características semelhantes, os mais comuns são:
1. Asma alérgica
O fenótipo da asma mais facilmente reconhecido, geralmente os sintomas iniciam na infância associados a antecedente do paciente, ou de seus parentes de 1º grau, que apresentam outras manifestações alérgicas, como eczema, rinite alérgica, alergias a alimentos e medicações. Geralmente esse fenótipo de paciente apresenta aumento do número de eosinófilos (células do sangue associadas a alergias) na secreção brônquica. Esse é o perfil de pacientes que se beneficiam bastante do corticoide inalatório (“bombinhas”).
2. Asma não alérgica
Alguns pacientes têm asma sem associação com alergias. A secreção brônquica desses pacientes pode conter neutrófilos, eosinófilos ou poucas células inflamatórias. Esse fenótipo tende a responder menos aos corticoides inalatórios.
3. Tosse como variante da Asma
Em crianças e adultos, a tosse crônica pode ser o único sintoma da asma. A evidência de limitação ao fluxo aéreo (diagnóstico da doença) pode estar ausente, a não ser que o paciente seja submetido a teste de broncoprovocação e submetido a teste de função pulmonar em seguida. Alguns pacientes evoluem futuramente com sintomas clássicos como chiado no peito e cansaço, sendo mais facilmente reconhecido. É importante ressaltar que o teste da broncoprovocação não é amplamente recomendado e tem suas contraindicações. Esse perfil de pacientes responde bem ao corticoide inalatório.
4. Asma do adulto ou de início tardio
Alguns pacientes, especialmente mulheres, começam a apresentar os sintomas de asma na idade adulta. Esses pacientes normalmente não apresentam outras alergias associadas e usualmente requerem doses maiores de corticoide inalatório, pois são relativamente refratários. A asma ocupacional, ou seja, asma que se expressa mais em ambiente de trabalho ou por inalação de irritantes inalados derivados do local de trabalho deve ser investigada nessa população.
5. Asma com limitação ao fluxo aéreo persistente
Alguns pacientes com sintomas de longa data, não adequadamente controlados, podem evoluir com limitação persistente ao fluxo aéreo, com pouca resposta ao uso das terapias. Essa condição é conhecida no meio médico como “asma remodelada” e se assemelha à Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica (DPOC). A inflamação crônica e persistente dos brônquios durante anos pode levar à sequela que mantém os brônquios constantemente mais “fechados”, com pouca resposta ou resposta parcial aos corticoides e broncodilatadores inalatórios.
6. Asma associada à obesidade
Alguns pacientes obesos portadores de asma têm sintomas mais intensos e um padrão de inflamação diferente, pouco eosinofílica. Os pacientes relatam piora de sintomas à medida que ganham peso e relatam melhora quando conseguem emagrecer. Outro ponto importante é a piora de sintomas da asma quando o paciente apresenta refluxo gastroesofágico, induzido pela obesidade.
Quais os sinais de crise asmática?
Além dos sintomas citados anteriormente (cansaço, chiado no peito, sensação de aperto no peito e tosse), alguns sinais e alteração do exame físico podem estar presentes durante a crise asmática e dependem da gravidade da crise, são eles:
Baixa oxigenação (Saturação de O2 < 95%)
Frequência respiratória aumentada no repouso
Dificuldade respiratória, ainda que a saturação de oxigênio esteja normal, às custas de esforço muscular
Uso de musculatura acessória: músculos trapézio, esternocleidomastoides, escaleno, reto abdominal
Retração de músculos intercostais (músculos entre as costelas), retração da fúrcula esternal (região cervical anterior)
Paciente assume posição de apoio das mãos em superfície a fim de aumentar expansão da caixa torácica (uso de músculos deltoide e trapézio)
Fala entrecortada: durante a crise, o paciente não consegue falar frases inteiras, faz pausas para respirar devido cansaço
Ausência de chiado no peito na presença de desconforto respiratório pode denunciar quadro grave (o fluxo de ar na via aérea obstruída está tão reduzido, que não é identificado murmúrio na ausculta pulmonar)
Alteração do nível de consciência (confusão mental, sonolência excessiva, desmaios, ausência de resposta ao chamado, agitação psicomotora)
É importante lembrar de que a presença desses sintomas não é suficiente para diagnosticar asma. Outras patologias pulmonares e cardíacas podem apresentar quadros clínicos semelhantes.
Como diagnosticar a Asma?
História típica de sintomas intermitentes: sintomas recorrentes com variação de intensidade, sintomas pioram à noite ou ao caminhar, geralmente surgem após algum gatilho, como exercícios, após risadas, exposição a alérgenos ou ar frio, sintomas pioram em vigência de quadros virais.
Excessiva variabilidade da limitação do fluxo de ar expirado: quanto maior a variação, mais provável é o diagnóstico de asma
Resposta positiva ao uso do broncodilatador no teste de função pulmonar (Espirometria)
Variação excessiva de pico de fluxo exalado (PEF) após 2 semanas
Aumento significativo da capacidade pulmonar depois de 4 semanas de tratamento com corticoide inalado
Variação excessiva de função pulmonar entre visitas no consultório
Resposta positiva ao teste de broncoprovocação (diminuição do fluxo de ar expirado após inalação de gás irritante)
Quais são os diagnósticos diferenciais da Asma?
São inúmeras as situações e patologias com apresentações clínicas semelhantes a da Asma, pois o “cansaço” é uma queixa muito presente em todas elas:
Inalação de corpo estranho: cansaço ou chiado unilateral súbita (crianças entre 6 e 11 anos)
Bronquiectasias: alterações da função e anatomia dos brônquíolos, levando a infecções pulmonares recorrentes
Discinesia ciliar primária: sinusites, produção de expectoração e infecções recorrentes
Doenças cardíacas congênitas: murmúrio cardíaco
Displasia broncopulmonar: bebês prematuros, sintomas presentes desde o nascimento
Fibrose cística: tosse e expectoração excessivas com sintomas gastrointestinais
Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica (DPOC): principalmente em tabagistas ou ex-tabagistas
Insuficiência cardíaca: cansaço, edema de membros inferiores, piora do cansaço ao deitar-se
Hipertensão arterial pulmonar: cansaço, edema de membros inferiores, limitação às atividades, Ecocardiograma com sinais de aumento de ventrículo direito e de aumento da pressão de artéria pulmonar
Hipertensão pulmonar tromboembólica crônica (HPTEC): cansaço, edema de membros inferiores, limitação às atividades, Ecocardiograma com sinais de aumento de ventrículo direito e de aumento da pressão de artéria pulmonar. Cintilografia pulmonar V/Q e Angiotomografia de tórax ajudam a identificar falhas de enchimento por trombos em ramos da artéria pulmonar
Embolia pulmonar aguda: êmbolos de coágulos recentes no interior da artéria pulmonar
Doença intersticial pulmonar: doença inflamatória do tecido pulmonar
Granulomatose com Poliangeíte (GPA): doença autoimune que causa inflamação dos vasos sanguíneos (vasculite), pode apresentar-se com sintomas pulmonares e nasais
Infecções pulmonares: pneumonias virais, bacterianas, fúngicas, tuberculose
Medicamentos: alguns anti-hipertensivos induzem a tosse e beta-bloqueadores podem induzir broncoespasmo.
Qual o melhor tratamento para Asma?
O tratamento da asma envolve uma abordagem multifacetada que visa controlar os sintomas, prevenir crises agudas, melhorar a função pulmonar e permitir que os pacientes levem uma vida ativa e saudável. Aqui estão as principais estratégias de tratamento:
Broncodilatadores de longa duração + Corticoide inalatório: tratamento mais comum na crise e na manutenção dos pacientes asmáticos. A posologia e duração do tratamento é variada e vai depender da frequência de crises, sintomas e gravidade. Essa estratégia costuma ser efetiva na maioria dos casos.
Broncodilatadores de curta duração: para alívio imediato, porém de curta duração. A medicação alivia, mas não trata, pois não tem o Corticoide inalatório, que tem efeito anti-inflamatório. Caso o paciente persista com sintomas quando já está em uso de broncodilatador de longa duração e corticoide inalado, pode fazer uso de doses adicionais de broncodilatador de curta duração a fim de aliviar o cansaço e/ou chiado no peito. Por isso, dizemos que o broncodilatador de curta duração é uma medicação de resgate, que não deve ser usada isoladamente (sem o corticoide inalado) durante as crises de Asma devido risco de efeito rebote do broncoespasmo.
Afastar exposição a desencadeadores/gatilhos: alérgenos, poeiras, mofo, umidade, fumaça, mudança brusca de temperatura, penas de aves, pêlos de animais, tapetes, cortinas, travesseiro com mais de 2 anos de uso.
Imunobiológicos: O uso de imunobiológicos na asma geralmente é reservado para pacientes com asma grave e não controlada, caracterizada por sintomas persistentes, exacerbações frequentes, função pulmonar comprometida e uso frequente de corticosteroides orais. Antes de iniciar o tratamento com imunobiológicos, é importante realizar uma avaliação completa do paciente, incluindo história clínica, avaliação da função pulmonar, perfil de mediadores inflamatórios (como níveis de eosinófilos no sangue ou expectoração induzida) e resposta ao tratamento convencional.
Quais vacinas são recomendadas para portadores de Asma?
Vacina contra Influenza (anualmente)
Vacina contra o SARS-CoV-2 (COVID-19)
Vacina pneumocócica: conjugada 20-valente (VPC20), conjugada 15- valente (VPC15) ou pneumocócica polissacarídica 23-valente (VPP23)
Vacina contra o vírus sincicial respiratório (VSR)
Vacina Tdap (dTaP/dTPa) para proteção contra coqueluche (tosse comprida)
7 Metas a serem alcançadas no manejo da Asma:
Controle de sintomas: poucos ou nenhum sintoma
Sem despertares noturnos por sintomas
Sem limitação à atividade física
Livre de exacerbações (crises de asma)
Melhora da prova de função pulmonar
Sem necessidade de uso de corticosteroide sistêmico (oral ou endovenoso)
Sem efeitos colaterais das medicações, quando possível
Os pacientes devem ser acompanhados regularmente por um pneumologista para avaliação da função pulmonar, revisão do plano de tratamento, ajuste da medicação conforme necessário e orientações sobre autocuidado e prevenção de exacerbações.
Fontes: Global Strategy for Asthma Management and Prevention (2024 update) | Recomendações para o manejo da asma grave da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia